Na estrada

Fotografar é minha paixão. Desde adolescente. Lembro da minha primeira Kodak Instamatic, que fazia totos quadradas, 9 x9, e cujos custos de revelação eram o complicador da história. Era maravilhoso estar com aquela coisinha na mão, documentando meus momentos, mas na hora de revelar… Que dureza!!!

Eu, porém, não me deixava vencer. Qualquer trabalho que pudesse ser feito em troca de uma graninha… eu aproveitava. O que eu mais gostava era dar aula de reforço (ou banca) a alunos de séries mais atrasadas, que me rendia mais e era mais fácil. Mas já vendi geladinho, lavei o carro do pai, engraxei sapatos (do pai, também), fiz biquinhos de croché em mil panos de prato, sei lá mais o que nessa época! Tudo por ver minhas fotos! Comprar o filme não era problema; os espertinhos da Kodak embutiam o preço do filme na revelação e “davam de graça”. O que mais doía era depois mostrar as fotos a meu pai e ouví-lo dizer: “Que coisa fantástica! Não tem dinheiro nenhum no mundo que pague isso!” E eu respondia baixinho: Tem, sim! O meu!!!

Mas esse tempo passou. Comecei a ter dinheiro (só um pouquinho mais, com muito mais esforço!) e óbvio, câmeras melhores. A primeira Yashica a gente nunca esquece… (MF1) e a primeira Canon também! (A propósito, se pronuncia “canón” e não “kenon“. É que é francês, canhão – referência à figura de que a câmera é uma arma, que dispara, sacaram?)

Minha primeira Canon veio da Inglaterra, era a “profissional do amador”, fazia um close fantástico… e chegou bem na semana do 5º aniversário de Aline. É dessa época minha melhor safra de fotos. Ela resistiu bravamente por uns bons 5 ou 6 anos, e aí a lente do zoom resolveu que ia embaçar, começou a desfocar, até que precisei aposentar a bichinha. (Ainda guardo, como lembrança, embora não funcione mais). Voltei a uma Yashica, mas nunca mais me recuperei da experiência de ter tido uma Canon

Até o dia – fantástico – que descobri a digital! As primeiras que tive acesso foram de marcas desconhecidas, absolutamente sem qualidade, mas era demais capturar uma imagem e vê-la instantaneamente. Uma câmera digital se tornou meu sonho de consumo. Só que minha vida já tinha dado milenãoseiquantas voltas… cadê dinheiro? Experimentei algumas digitais, uma Olimpus foi minha companheira por alguns meses, emprestada por uma amiga extremamente altruísta (nunca conheci alguém como ela – é a do “Manuel” ) e me rendeu minha primeira Canon digital!

Explico: Com a Olimpus fiz a foto com que ganhei a promoção do Guaraná Kuat – Abra a Kbça e apareçaAbra a Kbça e vi meu nome estampado nas embalagens de Kuat (que ironicamente só comprei essa única vez, até então, e pouquíssimas depois disso. – Não deixem a Coca saber…)

Então, o prêmio da promoção era uma Canon A 310, que chegou pelo correio alguns dias após meu 39º aniversário. Inacreditável!!! Eu, que nunca ganhei nem bingo de festa de final de ano… ganhar um concurso nacional desse porte???

Tá, a questão é que “não foi sorte, foi talento”, eu repeti várias vezes. Mas vou falar a verdade: nem acho que foi tanto talento assim. Uma fotinha tão micha… sei que foi a maneira que Deus achou pra elevar (e quanto!) minha auto-estima e me dar o presente que Ele sabia que eu estava desejando há muito, mas não teria como comprar.

A fotografia mexe tanto comigo, que me fez voltar a frequentar sala de aula. Estava numa festa de 15 anos de uma colega de Line, quando soube que o curso de Comunicação Social da UESC tinha 2 semestres de fotografia. Não direi que foi “por acaso”, né? Acasos não existem!!! Mas o fato é que na segunda-feira seguinte eu estava matriculada num cursinho, já decidida a enfrentar o vestibular.

Me apaixonei perdidamente pela magia da revelação em preto e branco, mesmo que os primeiros frutos desse amor tivessem sido terríveis! Fiquei  ali, babando por aprender tudo e um pouco mais, me oferecendo pra monitoria das aulas só pra passar mais tempo naquele laboratório congelante com um cheiro terrível de químicos, estragando roupa, tussindo feito uma tuberculosa, por conta da alergia… mas queria mais era estar ali. Ver a imagem se formando no papel, perceber que no escuro as coisas não mostram o que realmente são… e ouvir as broncas homéricas da professora, rir das besteiras que fazíamos e não contávamos a ninguém… foi bom demais! As aulas de Foto I me ensinaram a obedecer regras sem questionar demais (nesse aspecto – e só nesse).

Não encaro a fotografia digital como algo menor que a feita em filme e revelada quimicamente, como pensam alguns dos mais renomados fotógrafos. Descobri com a  prática que as duas técnicas tem suas vantagens e desvantagens. Hoje uso somente a digital, tanto pela praticidade quanto pelo menor custo (em termos, já que o equipamento não é nada barato). Mas procuro fazer a foto ficar boa desde o clic, não confiando nem planejando usar um editor de imagem para deixá-la no ponto.

Ainda não tenho todo o equipamento que desejo e acho que preciso, mas tenho aprendido que equipamento não é tudo. Técnica, feeling, inspiração e sorte completam os requisitos de se conseguir boas fotos. Ah, e a interação com o ambiente e o modelo também.

Recentemente vi nascer a minha primeira exposição pra valer, na Galeria Nelson Daiha, no Museu da Gastronomia Bahiana  no Pelourinho, em Salvador. “Rio do Engenho: Festas, Saberes e Sabores”  foi fruto de um projeto do Grupo de Pesquisa ICER – Identidade Cultural e Expressões Regionais da Universidade Estadual de Santa Cruz, onde estou fazendo Mestrado em Cultura e Turismo, na área de Fotografia e Representações Sociais.

A exposição é um capítulo à parte, em minha história, não somente por ter sido a primeira, mas por tudo que vivi e aprendi enquanto fotografei o Rio do Engenho, seus habitantes, seus costumes, sua cultura.

Gosto de fotografar pessoas que gostam de ser fotografadas, lugares e detalhes de objetos, flores e animais. Fotografo por puro prazer, não somente o meu, mas adoro ver o prazer no rosto de quem recebe as fotos, documento de um acontecimento, um momento, um sentimento vivido.

Roland Barthes, em seu livro A Camara Clara, diz: “aquilo que a Fotografia reproduz até o infinito só aconteceu uma vez: ela repete mecanicamente o que nunca mais poderá repetir-se existencialmente”.

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